Em tempos de Pandemia - Clarice. Quando o abraço físico não se torna possível, muito menos o contato, a risada calorosa, o estar com o outro, um poema para viajar, refletir, pensar e repensar.
O Ato Gratuito
Muitas vezes o que me salvou
foi improvisar um ato gratuito. Ato gratuito se tem causas, são desconhecidas.
E se tem consequências, são imprevisíveis.
O ato gratuito é o oposto da
luta pela vida e na vida. Ele é o oposto da nossa corrida pelo dinheiro, pelo trabalho,
pelo amor, pelos prazeres, pelos táxis e ônibus, pela nossa vida diária enfim -
que esta é toda paga, isto é, tem o seu preço.
Uma tarde dessas, de céu
puramente azul e pequenas nuvens branquíssimas, estava eu escrevendo a máquina
- quando alguma coisa em mim aconteceu.
Era o profundo cansaço da
luta.
E percebi que estava
sedenta. Uma sede de liberdade me acordara. Eu estava simplesmente exausta
de morar num apartamento. Estava exausta de tirar idéias de mim mesma. Estava
exausta do barulho da máquina de escrever. Então a sede estranha e profunda me
apareceu. Eu precisava - precisava com urgência - de um ato De liberdade: do
ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu secretamente
era. E necessitava de um ato pelo qual eu não precisava pagar. Não
digo pagar com dinheiro, mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto
preço que custa viver.
Então minha própria sede
guiou-me. Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente
de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: "Vamos ao
Jardim Botânico." "Que rua?", perguntou ele. "O senhor não
está entendendo", expliquei-lhe; "não quero ir ao bairro e sim ao
Jardim do bairro." Não sei por que olhou-me.
Deixei abertas as vidraças
do carro, que corria muito, e eu já começara minha liberdade deixando que um vento
fortíssimo me desalinhasse os cabelos e me batesse no rosto grato, de olhos
entrefechados de felicidade.
Eu ia ao Jardim Botânico
para quê? Só pra olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver.
Saltei do táxi e atravessei
os largos portões. A sombra logo me acolheu. Fiquei parada. Lá a vida verde era
larga. Eu não via ali nenhuma avareza: tudo se dava por inteiro ao vento, ao
ar, à vida, tudo ser erguia em direção ao céu. E mais: dava também o
seu mistério.
O mistério rodeava. Olhei
arbustos frágeis recém-plantados. Olhei uma árvore de tronco nodoso e escuro, tão
largo que me seria impossível abraçá-lo. Por dentro dessa madeira de rocha,
através de raízes pesadas e duras como garras - como é que corria a seiva, essa
coisa quase intangível e que é vida? Havia seiva em tudo como há sangue em
nosso corpo.
De propósito não vou
descrever o que vi: cada pessoa tem que descobrir sozinha. Apenas lembrarei que
havia sombras oscilantes, secretas. De passagem falarei de leve na liberdade
dos pássaros. E na minha liberdade. Mas é só. O resto era o verde úmido subindo
em mim pelas minhas raízes incógnitas. Eu andava, andava. Às vezes parava. Já
me afastara muito do portão de entrada, não o via mais, pois entrara em tantas alamedas.
Eu sentia um medo bom - como um estremecimento apenas perceptível de alma
- um medo bom de talvez estar perdida e nunca mais, porém nunca mais! Achar
a porta de saída.
Havia naquela alameda um
chafariz de onde a água corria sem parar. Era uma cara de pedra e de sua
boca jorrava a água. Bebi. Molhe-me toda. Sem me incomodar: esse exagero
estava de acordo com a abundância do Jardim.
O chão estava às vezes
coberto de bolinhas de aroeira, daquelas que caem em abundância nas calçadas de
nossas infâncias e que pisamos, não sei por que, com enorme prazer. Repeti
então o esmagamento das bolinhas e de novo senti o misterioso gosto bom.
Estava um cansaço benfazejo,
era hora de voltar, o sol já estava mais fraco
Voltarei num dia de muita
chuva - só para ver o gotejante jardim submerso.
(Clarice Lispector, Jornal
do Brasil)
Nesse e em todos os momentos, que poesia seja o alimento da nossa alma e que ninguém roube esse fazer.
ResponderExcluirAmei! Me identifiquei, pois tenho tido saudade de mim; vontade de me reencontrar, de me "aprofundar" em mim...Ah essa correria da vida, como nos rouba tesouros tão preciosos!
ResponderExcluirTão profundo, me emocionei com o poema, amo os textos, as reflexões da Clarice!
que lindo, amei!!
ResponderExcluircombina muito com o sentimento que to sentindo nessa quarentena hahah
que lindo, amei!!
ResponderExcluircombina muito com o sentimento da quarentena hahahah a vontade de sair por ai
Parabéns querida adorei!
ResponderExcluirNúbia, adorei passear com a Clarisse Lispector e ter as sensações desse passeio. Só uma grande escritora consegue isso. Eu não conhecia esse texto, muito obrigada pela viagem oferecida. Beijos
ResponderExcluirAdorei!
ResponderExcluirQue lindo, amei!
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