quinta-feira, 7 de maio de 2020

100 anos de Clarice



Nascida Chaya Pinkhasovna Lispector, Clarice Lispector faria cem anos em dezembro de 2020. Escritora e jornalista ucraniana naturalizada brasileira, a autora de romancescontos e ensaios, Clarice Lispector é considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX. A maior escritora judia desde Franz Kafka.

Para comemorar, a editora Rocco, que detém os direitos de publicação de seus livros, já começou a colocar no mercado a obra completa da escritora em 18 edições. O Instituto Moreira Salles de São Paulo prepara uma exposição sobre Clarice, com curadoria de Eucanaã Ferraz e Veronica Stigger, prevista para o segundo semestre. Além disso, duas adaptações cinematográficas de seus livros estão a caminho: A Paixão Segundo G.H., por Luiz Fernando Carvalho, com estreia confirmada para 2020, e Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, de Marcela Lordy, sem previsão de lançamento.

Clarice pintava quadros e escrevia catálogos de artes visuais. Era uma figura agregadora e promovia o diálogo entre escritores latino-americanos. Considerava-se tímida, mas participava de diferentes grupos literários e trocava cartas com João Cabral de Melo Neto e Rubem Braga.

A biógrafa e doutora em Letras pela PUC-Rio, Tereza Monteiro é idealizadora e guia dos passeios “O Rio de Clarice” e “O Rio de Carmen Miranda”, que integram o projeto Caminhos da Arte no Rio de Janeiro, criado em 2008.

O livro Eu sou uma pergunta: uma biografia de Clarice Lispector (1999), escrito pela professora, se tornou um trabalho pioneiro ao reunir uma pesquisa inédita com 88 depoimentos. Para Tereza, as pinturas de Clarice “Não são palavras, mas são pedaços de vida que ela contou”.

 – Além de se relacionar com diferentes grupos literários, Clarice também dialogou com artistas de outros setores. Escreveu para catálogos de pintores, como Darel (Valença Lins) e esteve em contato com Solange Magalhães. Teve um diálogo intenso com a Maria Bonomi. E ela não ficou restrita ao campo literário. Não é que quisesse se tornar uma pintora, mas ela lia, acompanhava, conversava e se relacionava com esse meio. E esse diálogo também emergia na literatura.

Perto do Coração Selvagem, O Lustre e A Cidade Sitiada, reedições já publicadas pela Rocco, são os três primeiros romances escritos pela autora, antes dos 28 anos. São livros com mais de 70 anos, atuais diante de todas as questões que cercam a força da mulher na sociedade. Nas três obras, Clarice coloca a mulher no papel central.

O editor da Rocco, Pedro Vasquez esclarece que os debates atuais envolvendo o feminismo encontram eco não apenas na biografia da autora, mas também nos romances, contos e crônicas que publicou.

– Clarice está mais atual do que nunca. Sempre esteve à frente de seu tempo. Era muito arrojada, por isso muitas vezes não era compreendida.

Sob essa linha de pensamento, Tereza Monteiro acredita que as ações atuais de mulheres são em consequência dos resquícios deixados pelas figuras femininas do passado.

- Meu olhar está voltado para o questionamento do que significa comemorar o centenário de uma mulher escritora no Brasil. É uma questão que tem a ver com o nosso tempo. Hoje se fala muito sobre a mulher empoderada, mas o que está acontecendo atualmente é resultado do trabalho das mulheres no passado. Clarice e outras mulheres de sua geração foram pioneiras, abriram caminhos.

Tereza acredita que A hora da estrela é o livro com a marca mais forte da Clarice, pois conseguiu expressar a questão social brasileira.

- A personagem Macabéa é uma nordestina que sai de alagoas, vem para o Rio de Janeiro e cai nessa selva. Trata-se de uma nordestina que não se adapta e não consegue se inserir na grande cidade.  A condição humana, do que é estar no mundo,  na vida, as angustias e as alegrias que  você enfrenta,  a luta do dia a dia e o próprio oficio do escritor. Ela conseguiu justamente dar voz a nós leitores, tem a sensibilidade de dizer com palavras o que muitos de nós gostaríamos de dizer, ela tem esse dom.

Um pouco mais de Clarice


Foi em fevereiro de 1922, de passagem por Bucareste, na Romênia, os Lispectors partem para a Alemanha, onde, no porto de Hamburgo, embarcam no navio Cuyabá, que os levaria ao Brasil. Aqui eles adotariam novos nomes. À exceção de Tania, todos, por iniciativa de Pinkouss, mudariam de “identidade”: o pai se tornaria Pedro; Mania, Marieta; Leia se transformaria em Elisa; e Haia – que significa vida, ou clara –, em Clarice.

Com tantas memórias a serem guardadas em sua bagagem, lembranças alavancadas por amigos queridos, apesar disso, Clarice Lispector se habituava em tomar remédios para insônia, o que viria a alavancar problemas de saúde.

Em 1977 sofre com uma súbita obstrução intestinal, de origem desconhecida, sendo internada na Casa de Saúde São Sebastião, no Catete. Em 28 de outubro é submetida a uma cirurgia, que virá a detectar o problema: um adenocarcinoma de ovário, irreversível. O câncer deixava a Clarice Lispector poucos meses de vida. Todo o tratamento aplicado era de cunho paliativo: a quimio, nem radioterapia serviriam a Clarice com uma doença tão avançada. Os amigos e a família se encarregaram de fazer companhia: Olga, Siléa, Elisa e Tania revezavam-se para que ela não ficasse só; Nélida e Rosa Cass a visitaram.

Morre no dia 9 de dezembro véspera de seu aniversário às 10h30. É uma sexta-feira e, em observância às leis judaicas quanto ao shabat, não pode ser sepultada. O enterro, no Cemitério Comunal Israelita, no bairro carioca do Caju, acontece, então, no dia 11, domingo.

Em 28 de dezembro, às 20h30, a TV Cultura leva ao ar a entrevista de Clarice Lispector, atendendo solicitação da escritora, que, no final daquele encontro, pedira ao entrevistador que o programa só fosse transmitido postumamente.

Acervo de Fotos


  
A família Lispector. Da esquerda para direita: Mania, Clarice e Pinkouss (sentados); Elisa e Tania (em pé). Recife, década de 1920.

   
O casarão onde Clarice morou, na praça Maciel Pinheiro, em Recife.

Foto de formatura do curso ginasial do colégio Sílvio Leite, em 1936.

Publicação do conto “O jantar”,  do jornal carioca A Manhã, em 1946

Capa da primeira edição do romance Perto do coração selvagem

Clarice e o filho Pedro com 1 mês e 11 dias 
Clarice e o filho Paulo com 5 meses de idade

 
Clarice em passeata contra a ditadura militar. À sua direira, Carlos Scliar; à sua esquerda, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento. Rio de Janeiro, 22.6.1968.



Último bilhete de Clarice escrito no hospital da Lagoa. Rio de Janeiro, 7.12.1977



Nenhum comentário:

Postar um comentário