Nascida Chaya Pinkhasovna Lispector, Clarice
Lispector faria cem anos em dezembro de 2020. Escritora e jornalista ucraniana naturalizada brasileira, a
autora de romances, contos e ensaios,
Clarice Lispector é considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes
do século XX. A maior escritora judia
desde Franz Kafka.
Para
comemorar, a editora Rocco, que detém os direitos de publicação de seus livros,
já começou a colocar no mercado a obra completa da escritora em 18 edições. O
Instituto Moreira Salles de São Paulo prepara uma exposição sobre Clarice, com
curadoria de Eucanaã Ferraz e Veronica Stigger, prevista para o segundo
semestre. Além disso, duas adaptações cinematográficas de seus livros estão a caminho: A
Paixão Segundo G.H., por Luiz Fernando Carvalho, com estreia confirmada
para 2020, e Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, de Marcela
Lordy, sem previsão de lançamento.
Clarice
pintava quadros e escrevia catálogos de artes visuais. Era uma figura
agregadora e promovia o diálogo entre escritores latino-americanos.
Considerava-se tímida, mas participava de diferentes grupos literários e
trocava cartas com João Cabral de Melo Neto e Rubem Braga.
A
biógrafa e doutora em Letras pela PUC-Rio, Tereza Monteiro é idealizadora e
guia dos passeios “O Rio de Clarice” e “O Rio de Carmen Miranda”, que integram
o projeto Caminhos da Arte no Rio de Janeiro, criado em 2008.
O
livro Eu sou uma pergunta: uma biografia de Clarice Lispector (1999),
escrito pela professora, se tornou um trabalho pioneiro ao reunir uma pesquisa
inédita com 88 depoimentos. Para Tereza, as pinturas de Clarice “Não são
palavras, mas são pedaços de vida que ela contou”.
– Além de se relacionar com diferentes grupos
literários, Clarice também dialogou com artistas de outros setores. Escreveu
para catálogos de pintores, como Darel (Valença Lins) e esteve
em contato com Solange Magalhães. Teve um diálogo intenso com a Maria Bonomi. E
ela não ficou restrita ao campo literário. Não é que quisesse se tornar uma
pintora, mas ela lia, acompanhava, conversava e se relacionava com esse meio. E
esse diálogo também emergia na literatura.
Perto
do Coração Selvagem, O Lustre e A Cidade Sitiada,
reedições já publicadas pela Rocco, são os três primeiros romances escritos
pela autora, antes dos 28 anos. São livros com mais de 70 anos, atuais diante
de todas as questões que cercam a força da mulher na sociedade. Nas três obras,
Clarice coloca a mulher no papel central.
O
editor da Rocco, Pedro Vasquez esclarece que os debates atuais envolvendo o feminismo
encontram eco não apenas na biografia da autora, mas também nos romances,
contos e crônicas que publicou.
– Clarice está mais atual
do que nunca. Sempre esteve à frente de seu tempo. Era muito arrojada, por isso
muitas vezes não era compreendida.
Sob
essa linha de pensamento, Tereza Monteiro acredita que as ações atuais de
mulheres são em consequência dos resquícios deixados pelas figuras femininas do
passado.
-
Meu olhar
está voltado para o questionamento do que significa comemorar o centenário de
uma mulher escritora no Brasil. É uma questão que tem a ver com o nosso tempo.
Hoje se fala muito sobre a mulher empoderada, mas o que está acontecendo
atualmente é resultado do trabalho das mulheres no passado. Clarice e outras
mulheres de sua geração foram pioneiras, abriram caminhos.
Tereza acredita que A
hora da estrela é o livro com a marca mais forte da Clarice, pois conseguiu
expressar a questão social brasileira.
- A personagem Macabéa é
uma nordestina que sai de alagoas, vem para o Rio de Janeiro e cai nessa selva.
Trata-se de uma nordestina que não se adapta e não consegue se inserir na
grande cidade. A condição humana, do que é estar no mundo, na vida,
as angustias e as alegrias que você enfrenta, a luta do dia a dia e
o próprio oficio do escritor. Ela conseguiu justamente dar voz a nós leitores,
tem a sensibilidade de dizer com palavras o que muitos de nós gostaríamos de
dizer, ela tem esse dom.
Um pouco mais de Clarice
Foi em fevereiro de
1922, de passagem por Bucareste, na Romênia, os Lispectors partem para a
Alemanha, onde, no porto de Hamburgo, embarcam no navio Cuyabá, que os levaria
ao Brasil. Aqui eles adotariam novos nomes. À exceção de Tania, todos, por
iniciativa de Pinkouss, mudariam de “identidade”: o pai se tornaria Pedro;
Mania, Marieta; Leia se transformaria em Elisa; e Haia – que significa vida, ou
clara –, em Clarice.
Com tantas memórias a
serem guardadas em sua bagagem, lembranças alavancadas por amigos queridos,
apesar disso, Clarice Lispector se habituava em tomar remédios para insônia, o
que viria a alavancar problemas de saúde.
Em 1977 sofre com uma súbita
obstrução intestinal, de origem desconhecida, sendo internada na Casa de Saúde
São Sebastião, no Catete. Em 28 de outubro é submetida a uma cirurgia, que virá
a detectar o problema: um adenocarcinoma de ovário, irreversível. O câncer
deixava a Clarice Lispector poucos meses de vida. Todo o tratamento aplicado
era de cunho paliativo: a quimio, nem radioterapia serviriam a Clarice com uma
doença tão avançada. Os amigos e a família se encarregaram de fazer companhia:
Olga, Siléa, Elisa e Tania revezavam-se para que ela não ficasse só; Nélida e
Rosa Cass a visitaram.
Morre no dia 9 de
dezembro véspera de seu aniversário às 10h30. É uma sexta-feira e, em
observância às leis judaicas quanto ao shabat, não pode ser
sepultada. O enterro, no Cemitério Comunal Israelita, no bairro carioca do
Caju, acontece, então, no dia 11, domingo.
Em 28 de dezembro, às
20h30, a TV Cultura leva ao ar a entrevista de Clarice Lispector, atendendo
solicitação da escritora, que, no final daquele encontro, pedira ao entrevistador
que o programa só fosse transmitido postumamente.
Acervo de Fotos
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| A família Lispector. Da esquerda para direita: Mania, Clarice e Pinkouss (sentados); Elisa e Tania (em pé). Recife, década de 1920. |
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| O casarão onde Clarice morou, na praça Maciel Pinheiro, em Recife. |
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| Foto de formatura do curso ginasial do colégio Sílvio Leite, em 1936. |
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| Publicação do conto “O jantar”, do jornal carioca A Manhã, em 1946 |
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| Capa da primeira edição do romance Perto do coração selvagem |
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| Clarice e o filho Pedro com 1 mês e 11 dias |
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| Clarice e o filho Paulo com 5 meses de idade |
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| Clarice em passeata contra a ditadura militar. À sua direira, Carlos Scliar; à sua esquerda, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento. Rio de Janeiro, 22.6.1968. |
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| Último bilhete de Clarice escrito no hospital da Lagoa. Rio de Janeiro, 7.12.1977 |










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