Uma
pequena seleção de grandes mulheres da literatura de língua portuguesa que
celebra dois movimentos – o da poesia e o das mulheres.
Conceição Evaristo, Nísia Floresta, Josefina
Álvares, Hilda Hilst e Elisa Lucinda compartilham sua relevância no cenário
poético.
Eu-Mulher
Por Conceição Evaristo
Uma gota de leite
me
escorre entre os seios.
Uma
mancha de sangue
me
enfeita entre as pernas.
Meia
palavra mordida
me
foge da boca.
Vagos
desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher
em rios vermelhos
inauguro
a vida.
Em
baixa voz
violento
os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes
– agora – o que há de vir.
Eu
fêmea-matriz.
Eu
força-motriz.
Eu-mulher
abrigo
da semente
moto-contínuo
do mundo.
Em
"Eu-Mulher", publicado no livro Poemas da recordação e outros
movimentos (2008), vemos uma amostra da poesia engajada da autora,
voltada para a valorização e afirmação
do corpo da mulher em todas as suas particularidades. Extremamente
forte e poderoso, os versos militam a favor da potencialidade feminina. Muito
conhecida no universo da literatura afro-brasileira, Conceição Evaristo,
nascida em 1946 em Minas Gerais, desponta como um dos grandes nomes dessa lista.
Por
Josefina Álvares
Ao rugido medonho da tormenta
Que a alma nos esmaga, nos
trucida,
Não pensem que maldigo a
triste vida
Nem o sopro de Deus que ora
me alenta
Nem um momento só sou
esquecida
De quem criou o mundo e
aviventa
A flor do prado, a fera mais
cruenta,
A tudo, enfim, que tem ou não
tem vida
É doce nas agruras da
existência
Lembrarmos a divina
onipotência,
Erguermos para o céu o
coração!
Naquele terno enlevo de fé
pura
É sempre mui feliz a criatura
Que forças vai buscar no
coração.
Josefina Álvares
de Azevedo foi jornalista, escritora, professora e feminista. Conhecida
por criticar a Igreja Católica em seus poemas e artigos, a escritora atentava
também para os temas que tratavam especificamente sobre a condição das mulheres
comuns, donas de casa, mães e trabalhadoras. A Família contava com
colaboradoras internacionais que, segundo o desejo de Josefina, deveriam
unir-se e apresentar as conquistas feitas em seus países, como França e
Inglaterra, compartilhando lutas e desafios.
Poemas
aos homens do nosso tempo
Por Hilda Hilst
Enquanto faço o verso, tu decerto
vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre,
escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento,
desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro
não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.
Publicado em 1974 no livro Jubilo
Memória Noviciado da Paixão, num período de plena ditadura militar,
"Poemas aos homens do nosso tempo" se debruça sobre o próprio ofício da escrita e
sobre a condição do poeta. Os
versos se constroem com a oposição entre aquele que se dedica à literatura e
aquele que escolheu ter uma vida não dedicada às palavras.
A
polêmica autora paulista Hilda Hilst (1930-2004) ficou famosa pelos seus versos
eróticos e apaixonados. O poema escolhido acima, no entanto, não é um exemplar
da lírica amorosa.
Por
Nísia Floresta
Era da natureza filho altivo,
Tão simples como ela, nela
achando
Toda a sua riqueza, o seu bem
todo…
O bravo, o destemido, o grão
selvagem,
O brasileiro era… – era um
Caeté!
Era um Caeté, que vagava
Na terra que Deus lhe deu,
Onde Pátria, esposa e filhos
Ele embale defendeu!…
É este… pensava ele,
O meu rio mais querido;
Aqui tenho às margens suas
Doces prazeres fruído…
Aqui, mais tarde trazendo
Na alma triste, acerba dor,
Vim chorar as praias minhas
Na posse de usurpador!
Que de invadi-las
Não satisfeito,
Vinha nas matas
Ferir-me o peito!
Ferros nos trouxe,
Fogo, trovões,
E de cristãos
Os corações
E sobre nós
Tudo lançou!
De nossa terra
Nos despojou!
Tudo roubou-nos,
Esse tirano,
Que povo diz-se
Livre e humano!
Nísia Floresta era
o pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, considerada a primeira feminista
brasileira e latino-americana, pois foi precursora em diversos campos ligados à
emancipação das mulheres. Seu primeiro livro, Direitos das mulheres e
injustiças dos homens, publicado em 1832, foi o passo inicial em direção a um
caminho sedimentado pela defesa dos direitos das mulheres, indígenas e escravos.
Aos 28 anos, abriu a primeira escola para meninas no Brasil, onde ensinava
gramática, música, francês e matemática, contrariando as outras instituições
que focavam na costura, boas maneiras e cozinha.
Amanhecimento
Por
Elisa Lucinda
De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em
amanhecimento
a aurora acabou por virar
processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se
acumulam
quando nossos destinos se
torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile
das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se
acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em
revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções
de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.
Investe
na criação de uma lírica voltada para o cotidiano, para os afetos e para as
pequenas situações do dia-a-dia. A linguagem empregada é informal e baseada
na oralidade, procurando
derrubar qualquer possível barreira entre o poema e o leitor. No poema acima
vemos descrita a relação de um casal que já se encontra unido há aparentemente
muito tempo. A comunhão e
a partilha se tornou
quase um hábito na vida dos dois. Os versos, no entanto, se ocupam de um
momento de crise do casal, mas que o eu-lírico acredita que será plenamente
superado.







Que maneiro, da lista não conhecia a história de Josefina Álvares
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