quarta-feira, 6 de maio de 2020

Poesias só de mulheres


Uma pequena seleção de grandes mulheres da literatura de língua portuguesa que celebra dois movimentos – o da poesia e o das mulheres.
Conceição Evaristo, Nísia Floresta, Josefina Álvares, Hilda Hilst  e Elisa Lucinda compartilham sua relevância no cenário poético.



Eu-Mulher


Por Conceição Evaristo

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
Em "Eu-Mulher", publicado no livro Poemas da recordação e outros movimentos (2008), vemos uma amostra da poesia engajada da autora, voltada para a valorização e afirmação do corpo da mulher em todas as suas particularidades. Extremamente forte e poderoso, os versos militam a favor da potencialidade feminina. Muito conhecida no universo da literatura afro-brasileira, Conceição Evaristo, nascida em 1946 em Minas Gerais, desponta como um dos grandes nomes dessa lista.








Por Josefina Álvares

Ao rugido medonho da tormenta
Que a alma nos esmaga, nos trucida,
Não pensem que maldigo a triste vida
Nem o sopro de Deus que ora me alenta
Nem um momento só sou esquecida
De quem criou o mundo e aviventa
A flor do prado, a fera mais cruenta,
A tudo, enfim, que tem ou não tem vida
É doce nas agruras da existência
Lembrarmos a divina onipotência,
Erguermos para o céu o coração!
Naquele terno enlevo de fé pura
É sempre mui feliz a criatura
Que forças vai buscar no coração.

Josefina Álvares de Azevedo foi jornalista, escritora, professora e feminista. Conhecida por criticar a Igreja Católica em seus poemas e artigos, a escritora atentava também para os temas que tratavam especificamente sobre a condição das mulheres comuns, donas de casa, mães e trabalhadoras. A Família contava com colaboradoras internacionais que, segundo o desejo de Josefina, deveriam unir-se e apresentar as conquistas feitas em seus países, como França e Inglaterra, compartilhando lutas e desafios.




Poemas aos homens do nosso tempo
Por Hilda Hilst
Enquanto faço o verso, tu decerto vives.

Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta

O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:

“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,

E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.

Publicado em 1974 no livro Jubilo Memória Noviciado da Paixão, num período de plena ditadura militar, "Poemas aos homens do nosso tempo" se debruça sobre o próprio ofício da escrita e sobre a condição do poeta. Os versos se constroem com a oposição entre aquele que se dedica à literatura e aquele que escolheu ter uma vida não dedicada às palavras.
A polêmica autora paulista Hilda Hilst (1930-2004) ficou famosa pelos seus versos eróticos e apaixonados. O poema escolhido acima, no entanto, não é um exemplar da lírica amorosa.

A Lágrima de um Caeté (Fragmento)

Por Nísia Floresta

Era da natureza filho altivo,
Tão simples como ela, nela achando
Toda a sua riqueza, o seu bem todo…
O bravo, o destemido, o grão selvagem,
O brasileiro era… – era um Caeté!
Era um Caeté, que vagava
Na terra que Deus lhe deu,
Onde Pátria, esposa e filhos
Ele embale defendeu!…
É este… pensava ele,
O meu rio mais querido;
Aqui tenho às margens suas
Doces prazeres fruído…
Aqui, mais tarde trazendo
Na alma triste, acerba dor,
Vim chorar as praias minhas
Na posse de usurpador!
Que de invadi-las
Não satisfeito,
Vinha nas matas
Ferir-me o peito!
Ferros nos trouxe,
Fogo, trovões,
E de cristãos
Os corações
E sobre nós
Tudo lançou!
De nossa terra
Nos despojou!
Tudo roubou-nos,
Esse tirano,
Que povo diz-se
Livre e humano!
Nísia Floresta era o pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, considerada a primeira feminista brasileira e latino-americana, pois foi precursora em diversos campos ligados à emancipação das mulheres. Seu primeiro livro, Direitos das mulheres e injustiças dos homens, publicado em 1832, foi o passo inicial em direção a um caminho sedimentado pela defesa dos direitos das mulheres, indígenas e escravos. Aos 28 anos, abriu a primeira escola para meninas no Brasil, onde ensinava gramática, música, francês e matemática, contrariando as outras instituições que focavam na costura, boas maneiras e cozinha.







Amanhecimento

Por Elisa Lucinda

De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.

Investe na criação de uma lírica voltada para o cotidiano, para os afetos e para as pequenas situações do dia-a-dia. A linguagem empregada é informal e baseada na oralidade, procurando derrubar qualquer possível barreira entre o poema e o leitor. No poema acima vemos descrita a relação de um casal que já se encontra unido há aparentemente muito tempo. A comunhão e a partilha se tornou quase um hábito na vida dos dois. Os versos, no entanto, se ocupam de um momento de crise do casal, mas que o eu-lírico acredita que será plenamente superado.

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